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O Paraíso de Eny


 

O cenário que falo é de uma casa, feito casinha de bonecas, seu telhado alaranjado, as portas e janelas num tom fraco de azul, no chão da varanda quadradinhos de cerâmicas, a escada da frente num tom cinza e mais forte a cor de cinza no corrimão.

A árvore da frente com flores perfumadas e amarelas, muitos galhos e folhas soltas pelo chão, tudo no compasso, acompanhando o vento brando e gostoso da manhã.

O riacho no transparente e límpido de sua água, seus peixinhos coloridos nadando de um lado para o outro.

A pequena ponte fazia o trajeto deste jardim até o outro lado, próximo as bananeiras e as flores arroxeadas; a cor da ponte vermelha, deixando este cenário ainda mais belo.

Umas pedras ao lado do riacho, eram como bancos e todos os dias, nos fins de tardes, Eny sentava e ficava a pensar, a desejar um outro lugar fora deste paraíso.

Eny é uma jovem moça, bela, seu cabelo como o amarelo do sol, usava uma trança comprida, caminhava por ali, sempre descalça e suas mãos eram sujas de terra, ela plantava todos os dias e cultivava cuidadosamente tudo de bonito de havia ali.

É uma jovem solitária... Desde o seu levantar ao deitar, desde o café da manhã ao jantar.

Todas as tardes ela está junto estas pedras no riacho, ouvindo ao longe, vozes, ruídos, pequenos barulhos que não consegue distinguir. Eram vozes de crianças, diálogos de adultos, passos, correria, Eny não via nada, nem ninguém...

- Crianças não mexam aí!

Esta frase gritava em seu ouvido.

Eny se sentia olhada e desejada, parecia que alguém acariciava seu cabelo, sentia também um beijo em seu rosto.

E longe, muito longe, uma voz se despedia...

- Até amanhã Eny...

E Eny voltava pra casa, confusa e carente...

Nunca entendera o porquê daquele lugar tão bonito só pra ela.

Tentou muitas vezes ir além daquele cenário, na trilha atrás da casa, na rua de barro do outro lado da cerca, em vão...

Estava presa num mundo florido e perfumado e sua solidão a companhia constante e cruel.

Será que alguém um dia irá socorrê-la?

Eny não lembra como chegou neste fechado e estranho lugar.

Todos os dias iguais e quando a noite chega, um clarão reflete na água do riacho, como uma espécie de lua e a sombra da jovem repousa neste belo alvorecer.

Enquanto isto, Jack, um moço robusto e atraente, com seu uniforme aberto na parte da frente mostrando o peito, boné virado para trás, um balde na mão e uma vassoura na outra, entra assoviando na “Sala de Artes” do “Museu Ludy”, limpa a poeira, ajeita o refletor para o quadro principal da sala, acaricia o cabelo da jovem sentada próxima ao riacho, desejando em pensamento estar ao lado da bela jovem naquele quadro, entrega-lhe um beijo no rosto e diz:

- “Até amanhã Eny”.

“O Paraíso de Eny”, a tela mais visitada do museu.

O Anel Mágico


 

Linda saiu cedo de casa para ir à feira, escolheu as melhores frutas e os legumes mais frescos. Quando está retornando para casa, acha na esquina da rua, no chão, um anel. Ele era largo e amarelo... Olhou para um lado e para o outro, no intuito de ver o dono e nada... Colocou-o no bolso.

Linda chega em casa arruma suas compras e depois senta no sofá para descansar suas pernas vinte minutos e neste momento lembrou da jóia que achara na rua. Segura com carinho o anel nas mãos, apreciando sua beleza e observa que parte interna do anel tem algo escrito “Faça o pedido de um sonho com cuidado, se não, nunca voltará”.

Linda ficou animada, resolveu chamar suas amigas para mostrar a jóia mágica, linda sentiu-se o verdadeiro Aladim e resolveu dividir esta alegria.

Depois de ter ligado para cada uma das amigas, foi imediatamente preparar o chá e os biscoitos para o encontro.

Linda é viúva e mora em um apartamento pequeno e tudo o que tem são estas amigas e a lembrança de um amor antigo em sua cabeça.

Cinco da tarde, as amigas chegam e Linda mostra sua jóia valiosa e então Carmem, a mais atrevida diz:

- Sou a mais velha, serei a primeira.

E esta desejou... E num passe de mágica Carmem estava em Paris, passeando perto da Torre Eiffel com seu novo namorado e o anel caído no chão do apartamento de Linda...

Agora é a vez de Lurdinha, esta desejou e num passe de mágica estava no interior da cidade com sua avó, ela sempre desejou cuidar de sua vozinha.

Denise não perdeu tempo e disse:

- Agora sou eu!

Desejou e também desapareceu da casa de Linda, foi parar em Miami Beach com seu noivo, os dois bebiam água de coco e aproveitavam o sol na “Terra estranha”, esta desejou bem.

Agora é a vez de Leila, ela estava meio em dúvida no que ia desejar e pediu um sonho do seu tempo aventureiro... E lá estava com um grupo de amigos nas geleiras, escalando na neve... Isto ela desejava desde menina.

Linda e Sara restaram, terminaram o chá e comeram os biscoitos, Linda perguntou á amiga:

- Você não tem medo Sara?

Sara respondeu:

- Claro que não amiga, imagina se vou perder a chance de realizar um sonho.

- Vamos lá Linda e não esqueça de fazer o pedido direito se não, nunca voltará.

Sara segurou o anel e num passe também de mágica estava no Hawaii dançando Ula-Ula com seu vizinho bonitão Rodolfo.

E por fim Linda pegou o anel caído no chão e segurou firmemente em suas mãos e fez o pedido.

Linda desejou estar ao lado de Fred, o verdadeiro amor de sua vida, seu namorado de juventude, desejou encostar-se em seu peito novamente...

E Linda acordou.

Estava com falta de ar, estava em um lugar escuro e úmido, o cheiro não era bom, não sabia que lugar era...

Linda estava abaixo de sete palmos da terra, dentro de um caixão e ao seu lado o corpo de Fred, que tinha morrido dois meses atrás...

Linda tentava sair desesperadamente e gritava:

- Socorro! Socorro!

- Tire-me daqui!

MALVINO


 

Não era um lugar desconhecido, era meu quarto, meu pequeno e confortável cantinho, tão real eu acordei e fiquei uns minutos na dúvida, se havia acordado mesmo ou adormecido, tirado um cochilo como de costume nos fins de tarde.

O despertador não soou, minha neta Camile não veio pular na cama esta manhã e o Rex não apareceu para lamber-me o rosto, o dia estava começando estranhamente tranquilo.

Não ouvi a fúria da criançada no lado de fora da casa, nem automóveis passavam naquele minuto, havia uma calmaria intensa e até o sol não apontou pela brecha da janela, o dia estava fechado, parecia dia de domingo, quando eu ia visitar minha sogra.

Fui até a cozinha avistar o café da manhã, Eulália minha querida esposa não preparou meu café forte neste dia de hoje, nem minhas torradas com geléia de uva. A casa estava fazia comigo. O cheiro de flores era forte no ar. Voltei ao quarto e nele caminhei de um lado para o outro traquinando o que fazer, resolvi descansar um pouco, ainda era cedo demais, talvez Eulália tivesse ido comprar pães e queijo minas.

E em poucos instantes notei uma breve música soando, vindo da sala. Beethoven, minha canção preferida, levantei-me lentamente e lá estavam todos, aconchegados na sala de estar provando os salgadinhos de Eulália e Camile correndo por entre os convidados, no seu vestido de festa. Rapidamente voltei ao quarto para colocar uma roupa mais apropriada.

Coloquei meu terno preto, a camisa de dentro num tom lilás e os sapatos já estavam engraxados, estupidamente lustrosos. A barba não precisava aparar, estava perfeita. Caminhei até a sala, os convidados estavam na atenção as palavras que Eulália me prestava, dizia aos amigos sobre este dia, aniversário de 68 anos e que certamente eu renascia, provavelmente em algum lugar bonito, numa calmaria que tanto eu almejava.

Descia as escadas lentamente, apreciando o palavreado fino na voz de minha esposa, seu vestido era lindo, havia comprado a pouco, ela queria usar em um momento especial deste ano, disse certa vez. Parei no vigésimo degrau, os convidados ainda não perceberam que eu estava ali, eu quis apreciar aquela linda cena, Eulália com o penteado favorito, a homenagem ao tipo de homem que sou e as coisas boas que fiz na vida, todos sabiam que eu estava ali, na espreita, e minha chegada na sala seria o grande final, melhor dizer que seria o início da festa. Sabia que não iriam esquecer do meu dia, meu aniversário este ano era bem esperado, principalmente por Camile, que desde semana passada pedia para não esquecermos do brigadeiro com granulado colorido.

E assim estava sendo, a mesa de doces com todos os tipos e cores, os salgados de todas as formas e sabores, bebidas das mais variadas, flores por toda a parte e até uma linda moldura com meu retrato predileto, uma pose de pensador quando eu tinha uns 40 anos de idade.

A campainha soou, a grande entrega chegara. Eulália deu uma pausa no discurso e fora receber a encomenda, certamente era um lindo bolo.

Tive de descer uns degraus para ver melhor a caixa que fora entregue, estava em cima de uma linda bancada, era uma urna preta com a lateral em ouro. As taças já estavam postas na mesa e a bebida aberta para o grande brinde. Um pouco da tradição Irlandesa invadia minha casa. Todos sorriam e festejavam.

Minhas cinzas prontas, eu caminhava e sumia repentinamente entre eles...

Mias Asas


 

Nem sempre meus dias são tão claros ou as noites estreladas, num profundo céu aberto e limpo, nem sempre. Há o dia em que meus olhos não abrem, meu pensamento se cala, minhas mãos se fecham, afim de um murro breve. Uma borboleta vem me ver pelas manhãs cinzas, seria ela minha mágica? 

Meu despertar desesperador? Ela aparece colorida como sempre, com seu bater de asas suaves, no seu ziguezaguear ao redor da varanda. Nem sempre estou à toa sentimentalmente, nem com aquele sorriso largo que trouxe da juventude, tampouco com aquele rebolado em frente ao fogão, nas tantas tentativas vãs de se preparar panquecas, nem sempre estou assim, de bem com a vida. 

As noites sempre são solitárias, o vento do lado de fora sempre sopra fraco, quase parecendo sussurrar um certo medo ao meu ouvido, sem falar nos ecos fartos do quarto, sem censura, fico trêmula, muda e pálida. Nem sempre sou assim tão triste e acho que “A tristeza é a pior coisa que existe”. Hoje resolvi então compor um samba... ”É preciso um bocado de tristeza”, como já dizia o mestre. E a tristeza grita tão desencadeada aqui dentro do peito, sem pudor, sem melodia certa ou letra correta, tampouco rimas exatas, porque é assim mesmo que se faz música. Apesar desta mulher silenciosa aqui dentro, de manhãs incertas. 

Se não fosse por aquela borboleta colorida em dias estranhos, esta fêmea encabulada que mora em mim já tinha partido, estaria morta, estaria sendo lembrada numa canção morna. Nem sempre meus dias são realmente dias. Meu passado está pronto no refrão, as experiências, tolices pobres que me compõe inteiramente. O suficiente está no papel, o que sobra, estes restantes de mim, as marcas impagáveis, agora são lembranças, meras cicatrizes, e também um simples doce, um doce suave na boca, sabor que não pode mais ser tragado. 

Completo meu voo, nestas incógnitas construídas por mim mesma, me jogo no calabouço das mentiras, das minhas próprias mentiras e viro notícia, sucesso absoluto, reflexiva nos corpos juvenis que rebolam sem vergonha alguma por aí nos bailes de máscaras. A borboleta hoje cedo não veio me ver. 

Estou nela, com lindas asas transparentes. Meu samba? Deixo aí em algum dia incomum, sussurrando na varanda de mais um corpo aflito, de mais um pensamento absurdo e frenético. Onde estou poderei recomeçar.

Moço


 

A vida passa correndo, eu sei. E realmente estou vivendo? Ou apenas remexendo os velhos baús de histórias? Decifrando as inúmeras palavras soltas e ignorando as que estão no ar... Deus é generoso, e embora eu seja apenas uma poetisa louca, com pele aveludada, uma errante singela e apaixonada, uma amante desnuda, escondendo amores perfumados, pensamentos que abocanham-me, feito gula infantil. Acelera-me o cio, fora de prumo, gritos roucos, atordoada de amor. 

 

Mas, minh’alma ainda debruçada na janela da solidão, eu nua, tentando atrair o moço bonito do outro lado da rua. E penso como seria nós dois abraçados e fadigados... Sem razão, feito andar nos trilhos, enamorados. Isto seria uma alegria macia, me arrepia a nuca em pensar, numa intensa ansiedade, feito jogo provocante, e sigo extasiada neste fervor absoluto... Neste querer de enredos breves e suor derramado no corpo. Mais agora só penso nos beijos quentes, nas mãos tateando minhas curvas e uma simples taça de vinho sobre a mesa. 

 

E embriagada deste sonho pouco, que estreita minha tristeza, tento não dormir sobre a colcha colorida da solidão, porque agora tenho sede e não quero a insônia e seu veneno estúpido, sinto-me encharcada de volúpias sem fim, em mim, delicadamente... E banhada, feito flor que se abre na primavera e perfuma pedestres na calçada, sigo pulverizando um sabor carente, delírios... Numa cadeia frenética, exalando minhas agonias, e desatando todos os meus desafetos, pétala por pétala, todos os tesões e palavrões da minha língua afiada e doce. E os restos de mim, os espinhos sangrentos, enrosco em meus passos, antes miúdos e agora apressados na noite que aponta na minha janela. Isto sim é amor! 

 

Porque me dói inteira. Porque ainda estou faminta de calafrios, porque ainda sou abelha sem mel. Isto é loucura! Disto também sei. Porque me delicio nas frases perversas de desamor. E um simples café pela manhã já não basta, não me desperta para o dia, e lampejos de solidão ainda me encontram, tento me esconder e não sei onde, viajar para fora de mim é inútil.

Anjo na Praia


 

Me envolvi em seus braços naquela noite. Foram alguns instantes que passei naquele quarto de hotel. Envolvida e acalentada, uma mistura de carícias e suor. Não é amor. Não é sentimento. E o que seria então? Esta vasta vontade de beijos gostosos e abraços fortes... Ainda sinto a pele morena na minha, ainda sinto aquele momento, tão breve, mais parecia que tudo passava bem rápido diante de mim, ao meu redor o mundo não existia, somente ele e eu e aquela voz suave ao ouvido. 

 

Uma voz rouca, pouca, que repetia palavras delicadas e mansas. Me senti um anjo. E sinto que pairei sobre as nuvens mais brancas no céu, uma mistura fantasiosa de mim e alguém que me ronda. Me faço menina, tentando achar estrelas, e sei que ainda nem noite é, mais no meu céu há tantas coisas juntas, que nem sei explicar...Uma constelação que me invade, me acanha e me torna tão calma feito um rio solitário. Sinto trovões por cima de minha cabeça, vultos sinuosos e primaveris. Estou sã? Porque sei que sou completamente louca e sinto ainda em meu corpo as marcas de amor deixadas, sinto como se tivesse levado muitas flechadas do cupido maldito. 

 

Por que ele me quer? Não quero a certeza de nada e sim as tempestades venenosas deste prazer. Não sei porque acham que me escondem tantos segredos, se o segredo sou eu... Não sei porque tapam a noite da minha face miúda, ou abafam o cheiro bom de jasmim que vem de fora. É o fervor que me deixa ranzinza e um tanto perigosa. E minhas asas imagináveis me levam alto, um voar com tantos sonhos dentro de mim, e giro...Rodopio...Um looping colorido dentro de mim... Mais ainda estava naquele quarto e era real, feito o dia que se vai e a noite que chega tão logo, feito o preto e branco, Rapunzel e seu longo cabelo. 

 

Quatro paredes, champanhe...A cama macia e lençóis sedosos... A tv fora de sintonia, e um pequeno abajur aceso, um momento romântico...E apenas tenho comigo desejos juvenis. Amarro o laço do cabelo e me ajeito para ir embora. Ir dali, voltar para a triste realidade, para minha sofreguidão interminável. Embora dolorida por dentro, lá no fundo do peito, vou sem resmungar, e mesmo que me coce a garganta, doida para cantarolar versos de felicidade, não me atreveria... Não gostaria de um conflito entre a raiva e o sorriso no canto da boca. 

 

O nó foi feito com muito esmero dentro de mim, sou agora apenas um anjo com medo, medo de não poder ser abraçada novamente, medo de apodrecer e não conseguir morrer de outra forma. Este hotel que minha mente retém, é apenas o primeiro degrau estúpido para fugir daqui, este alguém de braços amáveis é apenas o meu desamor sem importância, um deslize e desdém da minha dor, da minha alma fatigada e estragada, sem juízo e sem pudor. 

 

Levo comigo este momento apenas. Talvez uma leve lembrança do letreiro quebrado e da calçada lavada. Um flash ignorante de um lugar que não existe mais. E um gosto doce de pêssego na boca. Fim. Meu corpo jogado na praia... Um beijo apenas era o que eu precisava. Exatamente como estava no livro que li. 

 

Torname-ei somente uma moça de vestido vermelho ou anjo perdido na praia...

EU, interior...


 

Quando li o livro O Evangelho Segundo o Espiritismo de Allan Kardec, comecei a entender muitas coisas acontecidas em minha vida. 

 

"Os homens semeiam na terra o que colherão na vida espiritual: os frutos da sua coragem ou da sua fraqueza". Esta frase me fortaleceu de uma maneira incrível, ter coragem, mais coragem era o segredo para me manter em pé. Serei perdoada se eu conseguir me superar, fazer o bem, a caridade e ter sentimentos puros no coração, ao invés de mágoas e ira. Nada é por acaso ou coincidência, as coisas vão acontecendo conforme vamos plantando e eu desejo tanto ter uma boa colheita que comecei a perdoar a mim mesma e depois as outras pessoas, as coisas que estavam ocorrendo em minha vida. Aprendi a agradecer ao invés de pedir, Deus tem uma lista enorme, sem necessidade, Ele já nos dá mais do que realmente merecemos e com certeza o que carregamos não é mais pesado do que a cruz que Jesus carregou um trecho na sua história. 

 

O espiritismo soa em mim como verdadeiros versos! Frequentei muitos lugares no intuito de me encontrar com o Criador, me aborreci, me confundi. Levei um tempo para acreditar, mas Deus sempre esteve ao meu lado, eu que não acreditava nisto. O texto “Pegadas na Areia” conforta momentos de dúvidas. " Senhor, Tu disseste que, uma vez que eu resolvi seguir-te, Tu andarias sempre comigo. Durante a minha caminhada , notei que nos momentos mais difíceis da minha vida havia apenas um par de pegadas na areia. Não compreendo porque nas horas que mais  necessitava de Ti, Tu me deixastes. 

 

O Senhor respondeu me: - Meu Irmão. Eu Amo-te e jamais te deixaria nas horas da tua prova e do teu sofrimento. Quando vistes na areia, apenas um par de pegadas, foi exatamente aí que EU, te carreguei nos braços..." Teve momentos que eu quis desistir, queria me entregar, morrer logo de uma vez e acabar com todo o meu sofrimento, se eu tivesse conseguido ia ser pior pra mim mesma. Acredito que voltarei, acredito que já vim muitas vezes e farei quantas viagens forem necessárias para alcançar algum êxito, quero um dia poder espiritualmente me elevar. Será que realmente eu tenha escolhido tudo isto? De toda esta maneira cruel? O tempo se encarregará de me responder muitas perguntas, até lá estou tentando ser eu apenas. Realmente não é fácil crescer por dentro. 

 

É uma busca constante do nosso EU interior, dos nossos íntimos sentimentos, desejos aflitos... E o melhor mesmo nesta vida, é ser maior, pequena já não poderei ser... É trilhar nosso próprio caminho, com pegadas firmes e pés descansados. “É ser mais que uma simples razão”.

 

Filho da Lua


 Filho da Lua


Ela estava lá, bem distante de casa, sentada embaixo daquela grande árvore sinistra, o seu pulso pedindo um basta, um final, com o olhar triste e cabisbaixo, uma tamanha solidão em meio aos devaneios sofridos, sua visagem como a melhor companhia naquele instante.

 

A dor não doía tanto e nunca conseguira entender a sensação tão intensa nestes anos todos, a lástima de uma paixão avassaladora que corrói na veia sem nunca ter amado, que desgasta os sorrisos poucos e falsos ao mundo, a puberdade chegara e as dúvidas eram muitas, sensações intermináveis, como o começo de um parto natural. Não, ela não é uma jovem tristonha e carente de amor, as lamúrias são canções que ela mesma criou no seu obscuro prazer. A grande árvore já não tem folhas nem flores, somente galhos secos e fracos. 

 

A belatriz aguarda a noite cair no seu corpo pálido e virgem, o soprar do vento forte do cair da tarde, o sereno misterioso, o frio manso e calmoso. É assim que ela aguarda a chegada da lua no céu escuro, hoje ela será cheia e brilhante. É assim mesmo que ela renasce, a moça ganha mais poder para continuar aqui, neste globo que chamam de Terra, este imenso espelho, seu pavor. A noite chega feito um cavalo, calopando no seu passo ordinário em direção daquela árvore seca e velha. E o ato de ligação sucumbe e não há como ceder aos esforços, morrer é necessário. 

 

Esta volúpia extrema, apenas uma noite do ano se faz necessária assim, sem dor, copular ao sangue de uma besta humana. A noite penumbral rouba um pouco de vida e ali mesmo naquele campo que divide o tempo e o medo, nasce mais um órfão de pai, fora cuspido do espelho pela lua maldita, os lobos uivam celebrando... Miriam agora é apenas um zumbi, filha do demônio plantado na grande árvore e do seu ventre saíra o filho da lua. 

 

Ela já não é mais uma simples virgem, seu pecado agora está latente e a morte se encontrará com ela novamente próximo ano. O dia amanhece, a árvore seca e velha continua erguida sob a luz do sol delicado. O menino chora, o cesto fora colocado no limiar da casa da velha, a anciã do vilarejo macabro, a morte caduca.

Saudade


 Saudade


Sinto como um sopro forte na nuca. É uma saudade infinita, e sinto tão aflita e cortante aqui dentro de mim. Feito um sopro tão forte e atordoante. Sinto! E este sentir eterno dói, dói-me na alma. Sinto esta dor sinistra por dentro. Talha-me e retalha. 

É a saudade tão danada em mim. Do amor em que estou não gozo a poesia, isto me aflita! Fico a supor muito mais que este amor, e seria ele tão verdadeiro assim? E o que será da donzela tão bela que habita em mim? Viver sem rascunhos, sem eiras e versos... Sinto esta sensação absurda no meu peito, que me aperta e que retém meus sorrisos tolos do mês. Pobre estou sem letras tortas e palavreado miúdo. Agonia constante de mim, em mim... E o que sinto assim me faz bem? Pior seria nada sentir?  Estou fardada desta agonia mimada em querer não sentir tantas coisas assim. Mais a saudade fala mais alto, feito grito agudo ao pé do ouvido. 

Ó outrora não desejei tanto assim. Ó Deusa das minhas aflições... Tira-me deste calabouço de ideias perdidas, tira-me um pouco destas tentações nas entranhas. Ai de mim sem orações! Ai de mim sem amém. Ai que estou em fadigas muitas. A saudade que mais aperta aqui, em algum lugar aqui dentro eu ainda não detalhei. Será dos palcos mundanos, ou apenas de cidade de onde vim? Seria esta saudade louca da roupa que perdi, ou do calçado que furou? 

A saudade que incomoda seria da estrela que nunca mais vi, ou do relógio que se quebrou... O café também tem minha saudade na boca, daquele beijo que me foi roubado na juventude, do sonho recheado de chocolate, sinto saudade também. E lembrar do samba no pé e do sol fraco em dia de domingo me deixa em saudade tranquila, feito um balançar lento dos girassóis na varanda. E como já dizia Vinícius ¨Chega de saudade. A realidade é que sem ela, não há paz não há beleza, é só tristeza e a melancolia. Que não sai de mim. Não sai de mim. Não sai¨. 

E no meio das minhas tantas lembranças e belezas, esta saudade me faz assim tão bem. Esta melancolia tão boba, mesmo assim me conquista dias e noites. Sou dela e ela está desde sempre em mim. Serei feliz com ela até meu fim? Ó saudade que me acorrenta em tuas delícias, e me afaga em teus flashes malditos.  Não sai de mim. É apenas uma imensa saudade que sinto de um amor , partindo...

Meu Lado Samanta


 

Me refiz esta manhã. Acordei bela por ter matado Samanta. Ela morreu em meu pensamento, e muito por dentro de mim e pude com isto acordar inteira. Acordei por ter sonhado, e acordada queria dormir novamente e esquecer que Samanta um dia existiu em mim. Era minha gêmea. Uma parte estragada e funesta que existia no mais íntimo do meu ser, na minha parte mais inteira, meu âmago. E mesmo sendo tão estranha, nunca fui louca. 

 

Mesmo com conflitos a outrem. De muitas formas e jeitos. E a cegueira em mim me envolveu neste arranjo sentimental, me fez ter um queixume sincero e sem fim. Resolvi me embrenhar de vez em quando. E quando o sono ataca tão atroz, volto pra casa. E assim Samanta me consumia e me apresentava à muitas ideias durante meu sono. Me mortificava em meio as minhas tentativas de sonhar um sonho brando e tranquilo, sem me sentir tão cansada ao acordar.......Sei que eu estava numa demência repentina pela manhã e um surto invejável não seria ruim. 

 

E eu queria assim todos os dias, não ser tão demente, e não aguentei quando Samanta me atordoou numa manhã fria. Agora ela está lá desmaiada, e lindamente silenciosa. Sem pulso. Sem dor. Sem enigmas traiçoeiros. Agora ela está morta e realmente não sei o que será de mim assim, tão perdida. Mais me refiz, e já me sinto uma estátua no jardim. Uma estátua de olhos serenos e roupas leves. Mais serei sempre triste por ter este demônio dentro de mim. Ele me faz cócegas e sorrindo feito louca vou por aí matando monstros. 

 

E o meu era de mãos macias e de palavras doces. E usava uma flauta amarela, e derramava em mim encantos suaves, eu saía por aí feito zumbi perdida e devorava alguém. Devorava vivos também? E hoje cedo foi Samanta. Esta sombra que me acalentava e que muitas vezes, me atava no quarto. Ela era a parte mais importante de mim. 

 

Era meu lado majestoso e cativante. Todas as noites sinto saudade dela, do gosto afável da sua companhia. Olho embaixo da cama e profundamente sinto a dor de estar só novamente e não consigo dormir. E quando durmo com meus cacos purpurinados... Acordo arrependida. Por ter jogado fora a mais linda flor. Por ter amargado o mel das minhas insônias. Samanta se foi e eu agora fico louca...Louca na escuridão de mim.

Minha Melancolia

 


Minha melancolia é igual a uma criança que brinca no balanço do quintal. É feito folhas que aguardam lentamente o outono chegar ou até mesmo o gosto diferente de queijo com goiabada que fica na boca. É feita de restos de brigas, soco bem dado na parede, pele e osso e até teias que se alastram no canto da sala. 

Mais posso ser também como a brisa que invade as manhãs. Ferro, fogo, ferida fechada. Esta melancolia é feito aquele sonho que te faz sorrir quando levanta da cama, galope de um cavalo branco e o bater de asas de uma borboleta azul. 

Eu não seria ninguém. Ou seria alguém? Hoje sei que sinto, que vivo e respiro...Algo tão intimamente feroz! Porque sei que sou outra, do avesso e corretamente única. Esta insônia acordada dentro de mim, tão cheia aqui, me transbordando, espero um dia não obedecê-la, não sorrir para ela noites adentro. Mesmo querendo ser outra, sentir outras coisas, ainda tenho medo e acordo em seus braços nas manhãs frias do meu quarto. 

Seu colo é meu único conforto, lamentavelmente eficaz. 

E mesmo com minha voz melosa, este medo se exalta e me faz prisioneira, flor sem pétalas, chão sem asfalto, criança sem mãe. E nem mesmo minha alegria se manifesta, ou faz uma festa ao ambiente tosco do meu lar.

E fico tola, olhando para o céu das minhas noites finitas, procurando um pouco do véu estrelado que me cobre, um pouco da morte que me sorri, bela e mansa. Mesmo assim sou mais feliz nesta procura de ser feliz do que me saborear nos meus pulsos fracos...Sou muito mais Eu com esta melancolia e mesmo me entorpecendo neste desamor insuportável, ainda assim sou eu aqui, esculpida nesta agonia linda e meramente doce. 

Estou coberta de demônios fracos e hostis, cantarolando blá blá blás em minha cabeça noite e dia, dia-a-dia. Constantemente. Um tipo de música que dói na alma. E com isto meus passarinhos voam todos, correm num bater de asas acelerados e frenéticos. 

Fico só novamente. Sem meus pássaros, canção, insônia...Insônia...Insônia. Minha melancolia decerto é louca, com um tanto de bom humor e uma pitada, bem pouca, de pavor. 

Alucinada fico, alucinada estou. E meu próprio ar me sufoca lentamente e toda hora morro devagar, sufocando em minhas próprias agonias, adormecendo nos meus próprios pesadelos. 

E minha vontade de gritar por ajuda, poder sair deste mundo aqui, é farta.

E mesmo com minha alegria ressentida e este sono, um sono infinito e mal, mesmo com esta solidão sofrida, deste amargo na língua, procuro nos bolsos pedaços do meu coração. 

Catando-me perdidamente para não deixar minha melancolia se tornar mais forte do que eu. 




Ela & Eu


Ela e Eu


É ela que me torna menina, tão travessa e muitas vezes imensamente cruel. E ela me revela como as flores amarelas que caem no outono e nas noites frias parece me beijar a nuca. E mesmo sendo sufocante em muitos dias quentes do verão, ela me torna meiga e me torna incrivelmente branda e maléfica em tempestades passageiras. 

 

E mesmo ela sendo tão boa comigo, sinto que a prendo em meu calabouço de mentiras, meu delicioso calabouço e suas paredes úmidas, dando-lhe um tom mais grotesco e pavoroso. E meu desejo é tê-la em minha mente eternamente, tê-la por dentro de mim, me consumindo e me fazendo lembrar do amor. 

 

Ah amor! Perdoe se eu te esqueço, se eu te tenho tão perdido dentro de mim, estou desorganizada e atraída por um outro lado, um caminho que seu que não me pertence. Sou tola bem sei, como se tivesse morrendo algo dentro de mim, feito algas que se agarram nas rochas da praia. E aos poucos sei que consigo me entender, me achar ou me perder de algum modo, de algum jeito torto. E mesmo torta nesta solidão que me aflige, esta solidão desmedida e ordinária, sou feliz. Feliz! Porque meu coração é acorrentado por ela, vagarosamente pulsa meu pulso cansado... E ouço um chocalho sinistro em minhas madrugadas frias. 

 

E continuo sendo uma menina doce, mesmo com este nó que me dói a garganta. Porque Ela é meu poço raso, meu trilhar mais curto e minha cachaça mais pura. Ela estranhamente me embala em seus braços cintilados e me nina com suas canções de letras em outro linguajar. E ela nasce todas as manhãs junto comigo, me acalentando... Ela tão obscena e eu tão virgem. 

 

Virgem feito papel que rabisco todos os dias. Ela é meu mundo, e giramos freneticamente por aí, redescobrindo coloridos diversos mundo afora. Mesmo sangrando, mesmo chorando, mesmo nos escondendo da morte, mesmo tentando voar sem asas e falar sem língua. Somos o que somos e nada muda isto. Ela está em mim, e sinto que aos poucos sou mais Ela que eu mesma.

 

 Ela me mostra o que realmente é o amor, e assim consigo dormir, pouco tempo... E tento sorrir pra guerra que estoura lá fora. E é cortante as farpas que circulam no paraíso. 

 

Bebo insônia e canto versos de amor... Ela me ensina amar e amando vou me tornando cada vez mais Ela. 

 

Ela, a POESIA que me domina.

DESTAQUE

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